No coração dos parques eólicos do Rio Grande do Norte
Entre assentamentos rurais e estradas de terra, o estado que mais simboliza a eólica brasileira vive uma fase de consolidação — com novas perguntas sobre território e trabalho.
«A gente não vê mais o horizonte como antes. Mas também não vê mais a conta de luz do jeito que era.» — Antônio, morador de Upanema
O Rio Grande do Norte entrou no mapa da energia eólica brasileira antes de muita gente perceber. Quando os primeiros leilões abriram espaço para investimentos privados, o vento constante do litoral e do sertão chamou atenção de desenvolvedores europeus e, depois, de consórcios nacionais. Hoje, o estado responde por uma fatia relevante da capacidade eólica do país — e carrega, junto com os megawatts, um conjunto de histórias que vão além da planilha.
Em Upanema, a cerca de 80 quilômetros de Mossoró, Antônio Silva, 54 anos, lembra quando a estrada era de chão batido e o principal assunto na venda era a seca. «Chegaram as empresas, vieram os caminhões, arrumaram a estrada», conta. «Tem gente que reclama do barulho à noite. Tem gente que arrumou emprego na manutenção.» A ambivalência aparece em quase todas as conversas que tivemos em três dias de viagem.
Na central de operações de um dos maiores complexos da região — que preferiu não ser identificado nesta reportagem —, o engenheiro Paulo Ribeiro acompanha dezenas de turbinas em tempo real. «O desafio hoje não é só gerar energia», diz. «É integrar previsão de vento, manutenção preventiva e exigências ambientais num ritmo que o mercado cobra.» Ribeiro trabalha no setor desde 2011 e viu a tecnologia mudar: turbinas maiores, menos unidades por hectare, sensores mais precisos.
O que os números dizem — e o que omitem
Segundo dados públicos do operador nacional, o RN ultrapassou marcas expressivas de capacidade instalada nos últimos anos, consolidando-se como polo de geração eólica. Os leilões de 2024 e 2025 reforçaram a tendência, com projetos que devem entrar em operação entre 2027 e 2029.
Mas os números não capturam a disputa por terras, os processos de licenciamento que se arrastam ou as audiências públicas em que moradores questionam estudos de impacto. Em um município do litoral — que também pediu anonimato —, uma associação de pescadores articula participação em mesas de diálogo com a concessionária. «Não somos contra energia limpa», resume a presidente do grupo. «Somos a favor de ser ouvidos antes, não depois.»
O vento no RN não é novidade. A indústria que o transforma em receita e emprego, sim.
A expansão prevista para os próximos anos depende de fatores que vão além do recurso eólico: transmissão, demanda do mercado livre e, cada vez mais, a aceitação social nos territórios de implantação. Especialistas ouvidos pelo Brisa Setorial apontam que o RN pode continuar crescendo, mas provavelmente em ritmo mais moderado do que na década passada — com projetos maiores e mais capital-intensivos.
Para Antônio, em Upanema, a questão é mais simples. «Minha filha estuda agronomia por causa de uma bolsa que veio de um programa da empresa vizinha», diz. «Isso não apaga tudo, mas conta.»
Atualizado em 12 jun 2026